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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Quer se sentir mais perto da Itália?


Leia um romance policial do queridíssimo (pareço íntima) Andrea Camilleri.
Prosa da melhor qualidade, enredos policiais sem assassinatos bárbaros e personagens cativantes, o que mais você pode querer?

Camilleri resolveu escrever tardiamente, por volta dos 60 anos, e escolheu o formato policial para isso. No entanto, seus enredos possuem pouquíssimos cadáveres. Na imaginária Vigatta (que dizem as mãs línguas ser uma imagem da Sicília) o detetive Salvo Montalbano resolve os mais intrincados mistérios. Montalbano mora à beira mar e seu humor é tão volátil quanto o tempo. Salvo ainda mantém um relacionamento a longa distância com Lívia e é auxiliado por um atrapalhado Cattarella (personagem cômico que não sabe atender telefone, anota tudo ao contrário e fala uma língua própria). Vale a leitura e pode começar por qualquer um deles.

· A forma da água (Editora Record)
· O cão de terracota (Editora Record)
· O ladrão de merendas
· A voz do violino (Editora Record)
· Excursão a Tindari (Editora Record)
· O cheiro da noite (Editora Record)
· Um mês com Montalbano

E tem mais, só procurar. Falei que Montalbano come bem pra caramba? Queria as comidinhas que ele come viu. Leiam ainda essa noite.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Foi Assim, por Natalia Ginzburg




Cada escritor desenvolve um tipo de narrativa, mas como sou leitora compulsiva, posso dizer sem medo de errar quando uma prosa é "estritamente" feminina. Esse é o caso de Natalia Ginziburg, escritora italiana. Sua prosa é enxuta, rica em descrições precisas, cruéis, muitas vezes.

Adoro as frases iniciais:"Disse-lhe: - Diga-me a verdade - e ele disse: - Que verdade? - E desenhava rapidamente algo no seu livrinho de apontamentos e me mostrou o que era: um trem comprido com uma densa nuvem de fumaça preta e ele, que se debruçava na janela e acenava com o lenço.
Atirei em seus olhos."

Já sabemos o que vai ocorrer, não temos um mistério na trama. Este parágrafo contém toda a história: o "amor" dependente da personagem principal, o silêncio irônico do marido, o fim do casamento, o assassinato. No entanto, não conseguimos largar o livro até descobrirmos porque essa mulher, simples, ingênua, delicada e comovente assassina esse homem misterioso, indecifrável. Existe vida fora do relacionamento conjugal? Não para a personagem. Nossa anti-heroína sofre com a diferença entre o imaginado, o idealizado e a realidade. Ela esperava encontrar no casamento uma tranquilidade e felicidade imaginada, e por isso se dedica obssessivamente ao marido, e dispensa todos os outros aspectos da vida. A história trata da impossibilidade de se aceitar que a pessoa amada ame outro. A impossibilidade de aceitar o fim.

Recomendo, e melhor, pode ser lido durante uma tarde. Contém apenas 110 páginas.
GINZBURG, Natalia. Foi assim. São Paulo, Berlendis & Vertecchia Editores, 2001.


quinta-feira, 18 de junho de 2009

Dante no elevador??

Esse vídeo é demais. Eu já tenho pavor de elevador, imagina pegar um em Nova Iorque com essa instalação dentro.

Civilization by Marco Brambilla from CRUSH on Vimeo.



Medo.

sábado, 6 de junho de 2009

O efeito Urano, por Fernanda Young


Um tópico da comunidade sobre celebridades lésbicas me inspirou a escrever sobre esse livro em particular.Esse é o quinto livro de Young, que é por si só um enigma irritante, mas ninguém pode negar sua escrita e sua prosa, estritamente feminina e precisa, quase no ponto.

Li esse livro num golpe, numa sentada, para ser mais exata. E adorei. Isso foi antes de saber quem era Miss Young. A história é simples: uma dona-de-casa perfeita, bem casada, inteligente, rica, bonita e entediada se apaixona perdidamente por uma maluca excêntrica e bipolar. Está formado um triângulo amoroso com um clichê mais velho do que andar pra frente: ela escolherá o amor louco, desconhecido, extasiante, ou o conforto do conhecido marido previsível? Adoro as divagações da personagem principal, parece muito plausível, possível, tudo o que ela sente. Gosto muito da prosa de Miss Young, e suas cenas de sexo, em particular uma onde a personagem principal aprende a fazer um oral com maestria.

Leitura para quem gosta de prosa feminina, divagações, sacanagem e pouco romance. Não esperem doçura, e preparem-se para uma prosa prolixa, uma profusão de palavras tão disparatadamente femininas que, ou assusta, ou seduz.

domingo, 31 de maio de 2009

Small G, por Patrícia Highsmith

Faz muito tempo que não recomendo leitura alguma. Resolvi compartilhar uma "impressão de leitura" que elaborei quando li esse livro em 2006.

Essa senhora (carinhosamente chamo de Pat) tinha o dom para compor personagens definitivamente antipáticos, e outros extremamente frágeis, cativantes na sua delicadeza. Essa história se passa em Zurique e começa com o simpático Rickie sofrendo a perda do namorado, que foi assaltado e assassinado. Rickie tenta continuar vivo com sua poodle Lulu e freqüentando um bar-restaurante conhecido por Small G.
Paralelamente conhecemos Luisa (essa realmente, a protagonista da história), órfã e aprendiz de Cinderela na casa de Renate, a mais antipática, ranzinza, manipuladora e preconceituosa habitante de toda Zurique. Renate odeia homossexuais e quer a todo custo “proteger” Luisa de qualquer contato externo, com qualquer pessoa. Claro que Luisa travará uma bela e delicada amizade com Rickie. Temos ainda Dorrie (loira e gentil) e Teddy (rico, mimado e entediante) apaixonados, os dois, por Luisa...entrelaçadas histórias com o Small G e seus personagens como pano de fundo. Quem Luisa escolherá? Adorável e delicada história de uma mulher que sabia, como nenhuma outra, compor personagens femininas, e muito antes do que atualmente chamamos por "literatura lésbica".

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Pequena Sereia e grandes divagações

Sempre me irritou o destino que teve a pequena Sereia na mídia. Deturparam a mensagem principal dessa delicada história, que de infantil não tem nada. Quero falar de amor, achados e perdidos, porque estou romântica, sensível e afiada hoje. Vamos lá.

O conto é de Hans Cristian Andersen (1805-1875), escritor dinamarquês que NÃO chamou sua sereia de Ariel. A pequena Sereia não tem nome, esse Ariel (pelas minhas curiosas pesquisas) surgiu em Shakespeare, num personagem masculino, portanto a Disney te enganou amigo. De uma sensibilidade ímpar, Andersen nos fala sobre o amor nesse conto "infantil". Do amor que uma Sereia desenvolve por um príncipe. Como em todas as histórias de amor, o encanto da Sereia pelo humano foi tão grande que não era suficiente observá-lo ao longe, ela queria mais (pobre Sereia pretensiosa como todos os enamorados).

Para realizar seu amor e se tornar "visível" para o amado, a Sereia vende sua imortalidade e sua voz. Ganha pernas e vai tentar conquistar o princípe. Qual não é sua surpresa e desencanto quando descobre que o princípe já estava enamorado de outra? Além disso, muda, ela não tem como expressar seus afetos (percebem o poder das palavras para os amantes?). Ganhou pernas, mas cada passo dado são com "mil agulhas a perfurar suas pernas". Agruras de Sereia, sofremos em silêncio com ela. Por fim, sem final feliz, a Sereia não pode mais voltar ao que era antes (uma vez marcado por um amor, quem pode?). Voltar para casa ilesa significa eliminar o amado, e ela recusa esse ato. O princípe se casa com outra, a Sereia vira "espuma do mar", protetora dos amantes. Esse é o fim da história que me deixou triste durante semanas quando tinha 12 anos, e ainda me deixa pensativa.

Essa é uma história de rejeição, como lidar com a não realização de um desejo tão grande que transforma sua vida, principalmente seu jeito de olhar para o mundo (diria que te leva para novos mundos). Eu recomendo a Pequena Sereia (o conto) porque ele nos ensina que o amor, embora nos tire do eixo, não precisa ser destrutivo. Ensina que a rejeição faz parte do processo de viver (e também não é uma boa idéia vender sua alma por amor rsrsrsrs).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Carol, ou o preço do sal

Hoje estou me sentindo como a personagem principal (Therese) do segundo livro de Patrícia Highsmith: vazia. Resolvi então falar sobre essa história inovadora, gostosa de ler e muito bem escrita. Highsmith por si só merece um post à parte, com a sua prosa seca, perversa, atrevida. Como se isso não bastasse, seu segundo livro tinha um tema tão "assustador" para a época que foi recusado. A solução foi lançá-lo usando um pseudônimo. O que é tão assustador em Carol? Uma história de amor entre mulheres, e um amor com final feliz, o que era incomum para a época (1953). Nossa Highsmith portanto, foi uma das pioneiras a escrever sobre o "delicado" tema.

Therese é uma jovem órfã, cenógrafa, funcionária de uma loja de departamentos em plena época natalina. Presa em sua rotina, a solidão que a cerca é tão profunda que torna a sua vida cinza. Mesmo o namoro com Richard é vazio, protocolar. Tudo em Thereze parece ser cinza, vazio e árido, até o surgimento de Carol.
Estonteante Carol. Loira, linda, aristocrática, aparentemente inacessível. Carol é a cor que Thereze buscava. Mas nem tudo é cor de rosa na vida da própria Carol. Casada com um homem que a trata como uma boneca para ser exibida, a vida rotineira de dona de casa é tão vazia de sentido quanto a de Thereze. Highsmith nos mostra dois pólos opostos: a pobreza e precariedade de Thereze, a riqueza de Carol, e duas vidas vazias de sentido.
A aproximação entre as duas é lenta, mas inexorável. Elas ganham cor juntas, ganham sentido. Thereze decide acordar para a vida, Carol decide se libertar do seu papel de boneca. O amor transforma, une, mesmo com os contratempos pelos quais as duas passam, e acreditem, torcemos até o fim para que o marido malvado de Carol saia de cena e deixe nossas heroínas em paz.
Quer um teco? Não resisti e procurei uma imagem da capa do livro em inglês, olha que lindo. Carol, de Patrícia Higsmith.


domingo, 7 de setembro de 2008

Flores raras e banalíssimas


Peço novamente que você abandone os rótulos, mais do que apenas "literatura lésbica", Flores raras e Banalíssimas (Carmen L. Oliveira, Editora Rocco) conta a história de duas mulheres únicas, duas estrelas de universos diferentes. A história começa com uma mulher que parte em busca de si mesma (lembram da resenha que fiz para o Dia do Coringa?). Essa mulher é uma americana, desterrada, frágil, etérea, atormentada, poeta. Elizabeth Bishop vem para o Brasil em busca de sentido. Encontra um furacão de personalidade forte e protetora: Lotta de Macedo Soares. De tão improvável o romance entre elas é óbvio: Lotta oferece para Bishop seu amor, sua proteção e seu espaço.

Durante 16 anos, numa casa em eterna construção, viveram felizes. Bishop escrevia seus melhores poemas e Lotta tentava terminar a construção daquela casa monumental. Mas Lotta queria mais, no seu afã de urbanista sem título acadêmico, ela se envolveu com a política carioca para urbanizar o Aterro do Flamengo. Estamos nos anos 60 e Lotta trava uma intensa luta política para realizar seus ideais estéticos, arrastando Bishop para o centro do Rio de Janeiro, capital da República que a poeta desdenha abertamente em seus escritos. O teor crítico da poesia de Bishop não agrada ao círculo de intelectuais brasileiros e ela é francamente hostilizada por aqui. Nesse processo intenso Lotta se sente viva e atuante enquanto Bishop reavalia seus passos....

Interessante avaliar que as conquistas e lutas de Lotta não ficaram escritas no que ela fez. Tanto a casa do loteamento Samambaia, quanto o parque do aterro não levam sua assinatura. Por outro lado, Bishop foi praticamente ignorada no país. Portanto, esse livro resgata não apenas uma história de amor, resgata uma memória "propositalmente" enterrada. Quantas Lottas não ficaram "esquecidas" não apenas por serem lésbicas, mas principalmente por serem mulheres num universo masculino e acadêmico?

P. S.: esse livro é considerado o precursor da chamada "Literatura Lésbica" no Brasil. Elis odeia francamente os rótulos porque eles são perigosos e podem restringir o público leitor. Neste seção vocês vão encontrar resenhas de todos os "tipos" de literatura, porque a boa leitura se faz com boa literatura, não importando o quão lésbica ela é. Isso vale para filmes também. Fica a dica!

Quer ver fotos da casa de Samambaia? http://www.vitruvius.com.br/ac/ac015/ac015_1.asp

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O dia do Coringa


Para dar início ao nosso espaço literário, a San pediu e a Elis indica "O dia do Coringa", livro encantador de Jostein Gaarder, mesmo autor do já famoso "Mundo de Sofia". O que poucas pessoas sabem é que o Dia do Coringa é anterior ao Mundo de Sofia, ou seja, Gaarder afirma que fez o segundo livro pensando na criança-personagem do primeiro. Se o Mundo de Sofia é um manual de filosofia para crianças, o Dia do Curinga é apenas um livro infantil, mas que livro infantil.


Não se engane com o rótulo de literatura infantil, ele é ilusório. Gaarder consegue encantar muitos adultos com suas histórias recheadas de amor, desilusão, busca, compreensão, descobertas. Querem saber o enredo dessa história? Vou dizer apenas que li o livro e logo na primeira página me deparei com um pai filósofo-bebum, colecionador de Coringas, abandonado pela esposa-modelo e reponsável por um menino cuja imaginação é ilimitada. Esses são os pontos fixos da história. Você precisa de mais motivos para se encantar? Eu não precisei. Mas Gaarder pensou em tudo: pai e filho partem em busca da "mulher", aquela que foi embora em busca de si mesma, e durante a viagem percorrem as grandes paisagens filosóficas da Grécia (berço da filosofia). Essa mulher que parte é o ponto ausente-presente de toda a história, mãe, esposa e enigma. Nós percorremos a história inteira rezando para pai e filho não se decepcionarem caso não reencontrem a mulher.

Não vou contar o final da história, mas ela contém ainda elementos de outros clássicos infantis como "Alice no país das Maravilhas" e "Viagens de Gulliver". Para encerrar deixo com vocês uma observação do pequeno Hans com relação ao acordar de seu pai-filósofo-bebum: ele acordava sempre como se fosse a primeira vez, surpreso e encantado com a vida. Só por esse acordar todos os dias como se fosse a primeira vez já vale a leitura do livro, e foi esse acordar que me marcou para toda a minha vida. Só para encerrar com o significado do Coringa, carta única do baralho, é aquele que desestabiliza, mas que também faz conexões, a metáfora perfeita para o trabalho do Filósofo.

Espero que tenham gostado. Divirtam-se.


Link para baixar o Livro:http://www.4shared.com/file/36463350/c5f0e2e8/Jostein_Gaarder_-_O_Dia_do_Curinga-rev-pdf.html