quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Amor de plástico...


Quantos de nós já não nos apaixonamos errado?

Alguém já tentou se 'apaixonar certo'?
Existe 'amor certo'?
Eu vivo me apaixonando 'errado'.

Pelas causas furadas, pelas pessoas sem futuro, pelos projetos irreais, pelos artistas malditos e seus sons e cores 'fora de moda'.

Mas há casos piores, quando me apaixono pela imagem idealizada, pela dissimulação romântica de um desejo de ocasião, por um arrepio, um não beijo insinuado como promessa fácil a ser descumprida na primeira esquina. Paixão unilateral (não são todas?) sem qualquer esperança de reciprocidade e aconchego.
Sem motivos para começar ou acabar.
Apenas lá, egoísta e solitária.

Inútil...
Como se houvesse alguma utilidade a ser buscada.

É ainda pior quando o foco do amor é legítimo, plausível e palpável, mas o conservo à distância, afastamento seguro para o medo (meu) de que o encanto se quebre, de que a obra acabada perca o brilho imaginado, de que o arrepio não acompanhe o beijo e tudo acabe apenas em esquina, encruzilhada de rotas separadas.

Mantenho minha coleção de coleções, algumas com um só item, outras apenas na memória.
Coleções de beijos dados, outros sonhados, de afagos insinuados e não consumados, de caixas de fósforos que jamais acenderei e restos de conchas que furtei ao mar, latas enferrujadas que nem se abrem mais, mas de que eu sinto o cheiro e a emoção de quando as encontrei.
Umas continham delícias, outras apenas uma cor, todas (e cada qual) um pedaço de vida.
Mas são apenas latas e caixas, pedaços de quinquilharias amontoadas em outras caixas, maiores e mais fundas, que permanecem pelos cantos e prateleiras, sobre armários empoeirados.
E mesmo assim eu as amo.

Amo nelas o que vejo de mim, meu projeto de mim, e a ninguém mais nada disto faz sentido. Não vêem em nenhum desses objetos qualquer relação com suas próprias paixões.

A quem interessa o meu amor?
De que servem aos outros as minhas paixões?
E se o objeto, meu foco de paixão, não for de lata, papel, cristal ou barro, não for inanimado nem irracional? Ainda assim, a quem interessa?
A mim certamente.
Ao alvo, talvez.

Será certo ou errado? Será?
Todo amor é unilateral. E irracional.
De plástico?
De vidro?

Alguns.

"...O anel que tu me deste
era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
era pouco e se acabou
Por isso, D. Fulano
entre dentro dessa roda
diga um verso bem bonito
diga adeus e vá-se embora..."

A foto me tocou. Fundo.
O cisne negro do lago Aasee, em Münster, no noroeste da Alemanha, deixou seu abrigo de inverno no parque zoológico da cidade em 28/03/2007 e retornou ao lago onde no ano anterior nasceu a paixão pelo seu enorme "congênere" de plástico. O cisne (aliás, uma fêmea que recebeu o nome Petra), e o objeto de seu amor platônico haviam sido removidos para o zoológico de Münster, onde passaram o inverno europeu. A viagem de volta ao lago foi acompanhada por dezenas de fotógrafos e jornalistas do mundo inteiro.


O que se passou desde então?
Teve aquele amor o mesmo destino de tantos outros?
Algum destino?
Tiveram os meus amores de plástico algum destino, além das minhas coleções de caixas e latas de memórias?
Há alguma resposta que realmente valha a pena, ou estaremos todos fadados a continuar sempre buscando, sem pretendermos que nossos amores sejam qualquer outra coisa que 'amores de plástico'?

E sigo me apaixonando.
Pelas causas, pelas ilusões e pelos meus pedalinhos.
Os anéis?
Que me fiquem os dedos...

2 comentários:

Camila disse...

Olha parabéns Belo post!!!

Que venham outros !!!!

Arthur já ganhou uma Fã!

Petite Noire disse...

AI Arthur o rei!!!

Adorei a historinha do cisne negro. Amor de plástico...
eu sou desses que acredita em TODA A FORMA de amor. Inclusive no amor próprio.Ou deveria dizer, principalmente, no amor próprio?
Acho que no fundo amamos alguem pq procuramos neste alguem, nosso amor.
Seja vidro, plastico, areia, carne...amor é egoista, nao precisa ser recíproco.